
QUEDA DE BALEIA OU CANTO PARA DANÇAR COM MINHA MORTE
ESPETÁCULO DE TEATRO
Queda de Baleia ou canto para dançar com minha morte é um espetáculo sobre o tabu da morte na vida cotidiana, sobre o processo de eliminação do rito fúnebre nas sociedades capitalistas ocidentais, sobre medo, silêncio e negação. Mas é acima de tudo um espetáculo sobre a vida, inspirado na morte recente do pai da atriz Bruna Longo. O espetáculo fez três temporadas de sucesso na Capela do Cemitério do Redentor, em São Paulo, em 2025 e 2026. Foi indicado ao Prêmio APCA 2026 na categoria de Melhor Atriz. Integra a programação do São Paulo Showcase no Edinburgh Festival Fringe, na Escócia.
Histórico
Queda de Baleia ou canto para dançar com minha morte é um espetáculo sobre o tabu da morte na vida cotidiana, sobre o processo de eliminação do rito fúnebre nas sociedades capitalistas ocidentais, sobre medo, silêncio e negação. Mas é acima de tudo um espetáculo sobre a vida, inspirado na morte recente do pai da atriz Bruna Longo. O espetáculo fez três temporadas de sucesso na Capela do Cemitério do Redentor, em São Paulo, em 2025 e 2026. Foi indicado ao Prêmio APCA 2026 na categoria de Melhor Atriz. Integra a programação do São Paulo Showcase no Edinburgh Festival Fringe, na Escócia.
Sinopse
Bruna Longo acaba de morrer e procura elaborar o luto de si mesma – a única coisa que não podemos fazer empiricamente – enquanto reflete sobre a relação humana com a finitude, o tabu da morte na vida cotidiana e o processo de eliminação do rito fúnebre nas sociedades capitalistas ocidentais. Um rito cênico que mistura filosofia, antropologia e teatro, inspirado na perda do pai da atriz.

FICHA TÉCNICA
Direção, elenco, dramaturgia, cenografia, figurinos: Bruna Longo
Codireção e provocações dramatúrgicas: Vitor Julian
Provocações estéticas: Kleber Montanheiro
Visagismo: Fabia Mirassos
Sapatos: Marcos Valadão
Desenho de Luz: Gabriele Souza
Esqueleto de baleia: Paul Zanon
Cenotécnica: Evas Carreteiro
Provocações de movimento: Paula D’Ajello
Provocações de Kung Fu: Daniel Fusco
Preparação vocal: Jessé Scarpellini
Trilha sonora incidental: L.P. Daniel
Direção de Produção: Paula Malfatti
Produção executiva: Belle Fraga e Kayky Neves
Ilustrações: Victor Grizzo
Fotos: Danilo Apoena
TEXTO DO PROGRAMA POR BRUNA LONGO
DIA 26 DE JULHO DE 2022,
às 01:52 da manhã, meu pai morreu. Ao meio-dia seguinte iniciou-se o velório. Às 16:00 seu corpo foi colocado dentro do jazigo da família no cemitério do Araçá, em São Paulo, capital.
O que se seguiu foram dias de burocracias em bancos, cartórios, seguros. Dias que viraram semanas, meses. Nenhum convite a qualquer rito de passagem de uma realidade a outra. De filha a órfã. Todos os paradigmas mudaram subitamente. Nenhum tempo ou espaço para a elaboração. Nada. Não venho de uma família com crenças religiosas. Sou atéia, materialista. Não via, de imediato, nenhum caminho satisfatório para a elaboração da maior dor que já senti na vida.
Dois dias depois da morte do meu pai, passei a usar o barro desse luto como material para meu trabalho. Iniciei o único caminho que a mim parecia possível para essa elaboração. Meu templo é o teatro, minha liturgia é a pesquisa artística, minha reza é a dramaturgia. E esse é o germe deste espetáculo.
A morte é, para nós ocidentais, talvez o último intransponível tabu. Não falamos sobre ela. Não sabemos lidar com ela. No entanto, ela é também a única certeza inexorável. Num período histórico em que guerras, tragédias coletivas, violência, epidemias e pandemias são noticiadas em tempo real como nunca fora possível, e que a indústria cultural capitaliza em cima desses temas com espetacularização, a morte cotidiana se transformou em um assunto velado.
O processo de morte foi higienizado, burocratizado. O avanço da ciência e da medicina prolongou nossas vidas, mas também mudou a forma como morremos. Não se morre mais em casa, mas em hospitais – lugares onde busca-se vencer a morte, muitas vezes prolongando o inevitável. Ritos fúnebres são cada vez mais rápidos, padronizados e industrializados – com o boom de cremações comerciais.
A hipervalorização da juventude não quer nos deixar lembrar que morremos. Nós, Homo sapiens sapiens. Sempre esquecemos o último sapiens do nosso gênero. Somos humanos que não só sabemos, mas sabemos que sabemos. Para muitos historiadores e antropólogos, o nascimento da cultura humana como a entendemos está ligado ao luto.
A morte inspirou os primeiros ritos humanos, os primeiros hieróglifos, as primeiras histórias contadas em volta da fogueira. O nascimento da filosofia, da religião, da arte. Elaborar o luto inaugura quem somos, e, ao renunciarmos a isso, renunciamos a uma angústia metafísica essencial. Não falar da morte não a afasta, apenas a torna mais temerosa.
TEXTO DO PROGRAMA POR VITOR JULIAN
COMPANHIA INESCAPÁVEL
Você vai morrer. Desculpe falar assim. Eu poderia usar sinônimos para abrandar a coisa, sim, dizer que você vai descansar, se encantar, passar desta para a melhor, virar estrelinha, falecer, bater as botas, vir a óbito, vestir o paletó de madeira ou algo do tipo, mas nada mudaria o fato de que você vai... morrer. Não aqui nem agora, eu espero. Já pensou? A cara enfiada nas páginas deste programa, o corpo entregue à gravidade, as mensagens não respondidas acumulando no celular bloqueado por senha. Uma morte ordinária. Inesperada, mas absolutamente possível. Uma morte morrida sem sofrimento, sem dor, sem as marcas da necropolítica que ainda define quais corpos são dignos de viver sobre o chão deste país, sem violência - uma boa morte. Como a que eu espero ter e espero que você tenha. Não aqui nem agora. Então, até que o momento chegue, reconhecer da morte a sua companhia inescapável. Tê-la não apenas
como uma certeza futura, mas como uma presença cotidiana. Nem esperar que ela se antecipe, nem ignorá-la totalmente. Falar da morte com os nossos; cuidar do fim; trocar ideias; contar histórias; torná-la parte dos dias. Estabelecer uma conversa (agora sim) aqui e agora, ao redor da qual possamos nos reunir para encontrar um indício que nos lembre do que somos: um bando de animais compartilhando com todas as coisas vivas a graça da finitude. Seres humanos. Mortais.
MATERIAL DE PESQUISA
AS CANÇÕES NA PEÇA
A música, talvez a expressão artística mais consumida ao redor do mundo, não se furtou de tratar da morte ao longo do tempo. Da mesma forma que os valores, os costumes, a língua e as outras formas de arte, a música é constituinte fundamental da cultura de um povo. Cantos fúnebres, requiens e canções populares atravessam a história contando como os seres humanos de uma época lidaram com a mortalidade nos níveis sensível e político de sua experiência. Parte indispensável dos ritos, a música se estabelece como um elemento de conexão e reconhecimento - canta-se junto para o que quer que seja o fim daquele encontro. Estas são as canções que fazem parte de “Queda de Baleia ou canto para dançar com minha morte”:
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CANTO DE CARPIDEIRA PORTUGUESA, autoria desconhecida
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CANTO DE CARPIDEIRA BRASILEIRA, autoria desconhecida
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TE RECUERDO AMANDA, Víctor Jara
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DEN EINAI AVGI NA SIKOTHO, Nena Venetsanou
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FITA AMARELA, Noel Rosa
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NAQUELA MESA, Sérgio Bittencourt
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NÃO TENHO MEDO DA MORTE, Gilberto Gil
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CANTO PARA MINHA MORTE, Raul Seixas
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IS THAT ALL THERE IS, Jerry Leiber e Mike Stoller
MATERIAL DE PESQUISA
BIBLIOGRAFIA
Materiais sobre morte, luto e rito:
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A ANATOMIA DE UM LUTO, C.S. Lewis
-
A MORTE DE IVAN ILICH, L. Tolstói
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A MORTE: ENSAIO SOBRE A FINITUDE, F. Dastur
-
A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA VIVER, A. C. Q. Arantes
-
A NEGAÇÃO DA MORTE, Ernest Becker
-
EDUCAÇÃO PARA A MORTE, Prof.ª Maria Julia Kovács
-
FROM HERE TO ETERNITY, Caitlin Doughty
-
HISTÓRIA DA MORTE NO OCIDENTE, Phillipe Ariès
-
HISTÓRIAS LINDAS DE MORRER, A. C. Q. Arantes
-
HOW WE DIE, Sherwin Nuland
-
O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO, Joan Didion
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O CÉREBRO DE LUTO, Mary-Frances O’Connor
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PLENA ATENÇÃO À MORTE, Bhante G. Site
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PODCAST ALL THERE IS WITH ANDERSON COOPER, CNN audio
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SOBRE A BREVIDADE DA VIDA, Seneca
MÍDIA
CRÍTICAS
"Em 'Queda de Baleia ou canto para dançar com minha morte', Bruna Longo transforma o luto pelo falecimento de seu pai em uma partilha sensível sobre o desamparo e a ausência."
FERDINANDO MARTINS,
DEUS ATEU
"A maturidade corporal da atriz ao representar os vários estágios de um corpo nos faz ter certeza: é um solo de muitas Brunas."
"Interpretação corajosa que se inscreve entre as melhores deste ano pródigo em excelentes trabalhos."
JOSÉ CETRA,
PALCO PAULISTANO
Para mais informações, acesse a seção de material para produtores abaixo e faça o download do projeto completo.
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